Estas
dicas foram publicadas no jornal da ABES-RIO numa entrevista
concedida pelo nosso sócio e diretor engenheiro Jorge
Paes Rios à jornalista Tania Magalhães,
editora do Jornal da ABES.
Algumas
lições básicas para quem vai estudar no exterior
1 - Escolha
da especialização: Essa é a decisão
mais importante. Deve-se partir do pressuposto que o candidato
a bolsista (ou bolseiro, se for em Portugal) saiba quais os assuntos
deseja dominar, o que nem sempre acontece. Além disso,
o conhecimento da língua inglesa, em qualquer um dos casos
- e se possível de outro idioma para contatos específicos
-, é essencial. Esse conhecimento é condição
sine qua non e deve ser o mais fluente possível, pois diversas
dificuldades de origem acadêmica, ou simplesmente práticas,
poderão dificultar a vida do bolsista.
2 - Escolha
de instituição: O próximo passo é
a escolha da instituição, dentre os países
que oferecem cursos específicos. Em hidráulica,
os Estados Unidos, Portugal, França, Holanda e Rússia
proporcionam bons cursos. Sem dúvida, os países
que oferecem as melhores oportunidades em matéria de hidrologia
e recursos hídricos são os Estados Unidos, Inglaterra,
França, Itália e Hungria. Em saneamento, além
dos Estados Unidos, França, Alemanha e Holanda, todos os
países já mencionados anteriormente, possuem instituições
de renome e nível de ensino e pesquisa comprovados, tais
como o IST e o LNEC, em Lisboa; o IMG e a ENSH, em Grenoble; o
LNH, em Chatou; o HR, em Wallingford; os Laboratórios de
Delft e de Emerloord e a Escola de Hidrologia de Padova. Nessa
fase, aconselha-se o candidato a procurar maiores informações
no CNPq, nos respectivos consulados e, sobretudo, com pessoas
que já conheçam as instituições.
3 - Obtenção
da carta de aceitação: Feita a escolha, o candidato
deverá entrar em contato com a instituição,
a fim de obter todas as informações necessárias,
além de uma "carta de aceitação".
- ou documento similar - para que possa pleitear uma bolsa. A
não ser que prefira utilizar o próprio "bolso",
o que não deixa de ser uma opção.
4 - Como
obter uma bolsa no exterior: Diversos pré-requisitos
podem ser importantes: curriculum vitae adequado e satisfatório;
conhecimento de língua estrangeira, título de mestrado
ou doutorado, já realizado no Brasil (quando possível);
pertencer ao corpo docente de uma universidade; estar vinculado
a algum projeto importante na área específica de
especialização etc. A bolsa pode ser obtida através
de instituições brasileiras, ou estrangeiras, e
as exigências também podem variar conforme o caso.
No Brasil, o candidato deve procurar o CNPq, a CAPES e algumas
entidades particulares. No exterior, as possibilidades regulam
de acordo com o país e as informações detalhadas
podem ser obtidas junto aos consulados. Em termos burocráticos,
pode-se dizer que esta é a fase mais trabalhosa, na qual
os conhecimentos pessoais são de grande utilidade. O famoso
"jeitinho brasileiro" ou o "QI" podem auxiliar
bastante. Mas cuidado! Em alguns países, esse tipo de ajuda
pode atrapalhar.
5 - Valor
da bolsa e custo de vida: Ao conseguir a bolsa, e passado
o entusiasmo, o bolsista passa a conviver com a dura realidade.
O primeiro problema é o valor da bolsa, em relação
ao custo de vida no país de destino. Alguns viajam como
verdadeiros "marajás". Certas bolsas atingem
valores tão altos que, além de não completar
o curso, o "bolsista-marajá" retorna ao Brasil
com dinheiro suficiente para comprar um apartamento na Barra da
Tijuca. São raras exceções, mas existem.
Será que ainda é assim? A regra geral é a
bolsa de "bóia-fria", isto é, aquela que
pode significar um "cobertor curto": paga-se o aluguel
ou a calefação no rigoroso inverno europeu. Verifique,
portanto, o valor da bolsa, sempre com base no custo de vida local,
evitando as comparações com o Brasil. Previna-se
com uma reserva razoável ou com alguma bolsa suplementar,
caso contrário, o sufoco pode ser grande.
6 - Ajuda
do consulado brasileiro: Uma boa "dica" para quem
vai para o exterior é procurar, logo na chegada, o consulado
brasileiro. Apesar de algumas queixas, o consulado pode ser útil
para os contatos em geral, informações locais, aluguel
de apartamentos, legislação do país e, até
mesmo para se conseguir uma vaga no próximo avião
da Varig, em casos de emergência. O eng. Jorge Rios, por
exemplo, tem uma experiência positiva nesse sentido: ao
alugar um apartamento de um funcionário do próprio
consulado, em Lisboa, sua bolsa do CNPq (atenção!
cuidado!) atrasou por três meses. O CNPq responsabilizava
o Banco Central que, por sua vez, transferia o problema para a
Universidade que, como não poderia deixar de ser, culpava
o CNPq e assim por diante. Ele ainda estaria nessa "ciranda
financeira", com o dinheiro da bolsa aplicado no overnight,
se não fosse um telex enérgico e diplomaticamente
malcriado do cônsul brasileiro, em Marseille.
7 - Atraso
no pagamento das bolsas: Se a bolsa for concedida por uma
instituição que não apresenta problemas burocráticos,
os atrasos não deverão ocorrer, caso contrário...
boa sorte!
8 - Alimentação
no exterior: Estudante que se preza come mesmo é no
"bandeijão"que é igual em qualquer lugar
do mundo. Em Portugal, Jorge Rios engordou 10 quilos, mas não
foi por causa da boa qualidade da comida do "bandeijão".
A Pastelaria Suíça, no Rossio, ficava exatamente
no caminho de sua casa... bem, quase no caminho... era um pouquinho
distante. Todavia, para compensar, na França ele perdeu
os 10 quilos. O que "salvava a pátria" (francesa,
é claro) eram os queijos e vinhos que, apesar de nacionais,
eram mais baratos do que a coca-cola.
9 - As
pragas: Atenção bolsistas! Benetton, C&A
e Mc Donald's são pragas mundiais. Evite-as, se puder!
10 - Moradia:
As moradias variam muito, de acordo com o local e a época
do ano. Em alguns países, pode ser fácil conseguir
uma vaga em alojamentos universitários para solteiros ou
casados. Uma regra é essencial: procure, antecipadamente,
o maior número de informações para não
passar "sufocos". Nesses casos, as melhores informações
são das pessoas que viveram recentemente no local. Nunca
aceite conselhos de turistas ou do consulado estrangeiro no Brasil.
O bolsista pode se dar mal. Nunca viaje levando família
inteira, a não ser que haja condições satisfatórias
para pagar um hotel por tempo indeterminado.
11 - Namoro
no exterior: Sem maiores comentários...
12 - Transportes
urbanos: em alguns países, o transporte individual
está tão desenvolvido que as opções
pelos transportes coletivos podem criar problemas sérios,
sobretudo se o bolsista for obrigado a caminhar grandes distancias
ou esperar por um ônibus, ou trem suburbano, em pleno inverno
europeu. O melhor é verificar as distancias e os possíveis
trajetos de casa para o trabalho. Dependendo da bolsa, a solução
pode ser o automóvel ou o transporte solidário.
13 - Gírias
e supermercados: Mesmo que o bolsista fale fluentemente o
idioma local, ainda há muito o que aprender. As gírias,
sobretudo aquelas chamadas "acadêmicas", são
normalmente utilizadas entre estudantes e professores. Os "termos
técnicos" dos supermercados também podem ser
uma novidade. Mesmo em Portugal, uma estudante conseguiu coletar,
sem grandes esforços, cerca de 500 palavras e expressões
não utilizadas ou incomuns no Brasil. Felizmente, hoje
existe um dicionário lusobrasileiro para os mais parvos.
Além disso, o famoso "plim-plim" já chegou
em além-mar, o que faz com que os gajos assimilem alguma
coisa do linguajar "global" ... a Globo 90 é
nota 100... ora pois, que confusão!
14 - Conselho
acadêmico: Não há outro: o esforço
acima de tudo.
15 - Turismo
também é cultura: A título de orientação,
aí vai uma constatação: o turismo é
incompatível com a vida acadêmica, principalmente
durante o período de aulas e provas. Felizmente, isso só
ocorre nessa época. Durante as férias e principalmente
após o término do curso ou do estágio, se
sobrar algum dinheiro, o bolsista não deve guardar nada.
Aproveite! Nunca se sabe quando haverá uma outra oportunidade.
16 - Burocracia
francesa: Os brasileiros que reclamam da burocracia no Brasil,
não sabem o que é conviver com ela, na terra dos
seus inventores. O mais grave é que o célebre "jeitinho",
melhor arma contra a burocracia, ainda não foi descoberto
na França. Para obter o registro definitivo na Faculdade,
o infeliz bolsista precisa apresentar a carteira de permanência
(carte de séjour), Por mais estranho que pareça,
para obter a carteira de permanência é necessário
a apresentação do registro definitivo. Durma com
um barulho desses! A solução é tirar um registro
provisório com antecedência. A principal "dica"
para diminuir as peregrinações de um bolsista, é
levar todos os documentos (todos mesmo!) já traduzidos
no Brasil, por um tradutor juramentado, e com o carimbo do consulado
francês. Na lista de documentos não podem ser esquecidos:
certidão de nascimento, diploma universitário, exames
médicos, declaração do órgão
que está concedendo a bolsa, comprovante de vínculo
empregatício etc. Em hipótese alguma, deixe a carteira
de motorista vencer durante a estada na França. A carteira
internacional não serve para nada, somente aquela expedida
pelo DETRAN, órgão oficial no Brasil, é válida
em qualquer circunstância. Mesmo com todos esses cuidados
é bom prevenir, pois o bolsista pode demorar um mês
e perder a calma na regularização da papelada. Cés
sont les bureaux, mon cher!
17 - Trabalho
no exterior: Pára um bolsista é praticamente
impossível trabalhar em outro país. Primeiramente,
por causa da absoluta falta de tempo. É preferível
dedicar, integralmente, as horas ociosas aos estudos e à
elaboração de teses. Outro aspecto importante, diz
respeito a legislação internacional que, normalmente,
não permite que estrangeiros exerçam funções
remuneradas no país. Nesse caso, sobram os "empregos
clandestinos", o que além de ser arriscado, é
muito mal remunerado.
18 - Encontro
com brasileiros: Encontrar brasileiros e brasileiras no exterior
pode se tornar uma "faca de dois gumes". O lado positivo
é a solidariedade que, nesses casos, sempre funciona; afinal,
estão todos no mesmo "barco". As reuniões
semanais devem ser organizadas para receber os novatos e transmitir-lhes
as principais "dicas" da cidade e do país. Como
todas as "dicas" são válidas em qualquer
lugar do mundo, o eng. Jorge Rios e seus companheiros elaboraram
uma apostila que era distribuída para os recémchegados.
Além disso, vale a pena promover reuniões sociais
e a tradicional "pelada" semanal. O lado negativo, fica
por conta daqueles que esquecem que estão num país
estrangeiro e exageram no convívio com os brasileiros.
Para servir como exemplo, vale mencionar o caso de Grenoble, onde
duas brasileiras, de Fortaleza, não conseguiram aprender
uma só palavra de francês durante os seis meses que
permaneceram na cidade. Alguns bolsistas se isolam de tal maneira,
que não chegam a conhecer a cultura local. Outro perigo
diz respeito àqueles que resolvem adotar a tese "gersiniana"
como norma de vida: estão sempre procurando levar vantagem
em tudo, certo?
19 - Encontro
com os nativos: Dependendo da bolsa, os encontros e desencontros
com a cultura local e as pessoas, podem estar repletos de surpresas
agradáveis e desagradáveis. Os portugueses, belgas
e italianos podem ser muito calorosos e receptivos com os estrangeiros,
principalmente com brasileiros. Os franceses, por sua vez, são
extremamente reservados, enquanto os alemães e escandinavos
são indiferentes, ou até mesmo hostis, dependendo
da cor da pele, cabelos e olhos do "invasor". Vale recomendar
a leitura do livro "Cabeça de Turco", do escritor
alemão G. Wallraff, para que o bolsista compreenda um pouco
o racismo existente na Europa, muitas vezes velado, mas bastante
violento com os povos subdesenvolvidos de maneira geral. As situações
podem variar de acordo com o local, mas é bom ficar atento.
Tipos negros, mulatos, morenos, árabes, turcos é
outros, podem enfrentar situações constrangedoras:
Situação
n° 1 - Em certa ocasião, um cidadão
de Barbacena foi retirado de um bar na Suécia, em cuja
porta havia uma placa: "Não aceitamos árabes
nem cachorros".
Situação
n° 2 - Em Portugal, os brasileiros são obrigados
a recusar convites para o jantar, simplesmente porque a agenda
está completamente lotada. Na França, as coisas
são bem diferentes...
Situação
n° 3 - O encontro com a cultura nativa pode gerar
uma série de equívocos e peripécias. Ao alugar
uma casa na França, o eng. Jorge Rios deparou-se com uma
situação inusitada: no preço do aluguel estava
incluído o trabalho de uma arrumadeira (espécie
de caseira) que utilizava o telefone para falar com seus amigos,
das cidades mais longínquas da França, e ainda carregava
a metade dos mantimentos comprados pelo engenheiro. O marido da
arrumadeira, por incrível que pareça, era da polícia.
Resultado: Jorge Rios mudou de casa.
Situação
n° 4 - Em certa ocasião, um conhecido cientista,
professor de uma Universidade, convidou o eng. Jorge Rios para
passar o Natal em sua casa, um castelo recém adquirido,
juntamente com um grupo de refugiados vietnamitas. O famoso cientista
considerava o "máximo da caridade cristã"
cear, uma vez por ano, com o grupo, como se os vietnamitas não
se alimentassem os 364 dias restantes. Resultado: Jorge Rios recusou
o filantrópico convite.
Situação
nº 5 - Na França, uma assistente social, conhecendo
as dificuldades do engenheiro em conseguir moradia, aconselhou-o
a se apresentar como refugiado político, para os quais
são concedidas certas prioridades e uma série de
vantagens. A moça só esqueceu um pequeno detalhe:
o único comprovante de rendimento do engenheiro era a bolsa
do governo brasileiro. Aliás, como há assistentes
sociais na França!
Situação
nº 6 - Certa ocasião, o eng. Jorge Rios foi
convocado pela professora de seu filho para que comparecesse com
certa urgência na escola. Pasmem: o garoto estava introduzindo
o mau hábito de escovar os dentes após o almoço.
Situação
n° 7- Em outra oportunidade, na Holanda, um cidadão
brasileiro foi investigado severamente pela vigilância sanitária,
em virtude de uma denúncia feita pela proprietária
do prédio onde ele morava. Motivo: a senhora estava temerosa
que o rapaz fosse portador de alguma doença grave na pele,
já que tomava banho todos os dias.
Situação
n° 8 - A sauna mista da Universidade de Grenoble faz
o maior sucesso entre os brasileiros. O traje é o tradicional
"nu e ao vivo". Os latino-americanos vão às
sextas-feiras, mas sempre tendo o cuidado de proibir que as esposas
freqüentem um lugar tão promíscuo. O lado positivo
fica por conta do surgimento de ótimas e duradouras amizades.
20 - Arrumando
as malas: O bolsista deve levar o que puder e tudo aquilo
que considerar de grande utilidade. Mas não exagere! Evite
as coisas inúteis. Quase tudo no exterior é bem
caro. O bolsista não deve esquecer que vai pagar em dólar.
Roupas de inverno e sapatos especiais para a neve são mais
baratos no Brasil. O manual do CNPq (ainda não lançado)
recomenda que o bolsista leve panelas, pratos e talheres. Isso,
na verdade, é inútil. Além do peso, muitas
vezes o bolsista ou estagiário consegue alugar apartamentos
mobiliados. Na hora de voltar, não convém trazer
excesso de bagagem. O bolsista deve procurar despachar tudo pelos
Correios, principalmente os livros que pesam muito e gozam de
tarifas mais baixas.
Boa sorte
e boa viagem!
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