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A Francofonia

outubro de 2002

Criada em 1880 pelo geógrafo Onésime Reclus para referir-se à comunidade lingüística e cultural constituída pela França e suas colônias, a palavra francofonia está hoje isenta desta conotação colonial, designando duas realidades diferentes mas complementares. Em sua acepção mais ampla, ela engloba o conjunto das iniciativas de promoção do francês e dos valores que ele veicula, sem levar em conta os países onde ocorrem. No sentido institucional – quando é escrita com f maísculo – ela qualifica a organização internacional que congrega os 55 Estados e governos que aderiram a sua Carta.

Uma capacidade de atração baseada na influência do francês (voltar ao topo)

A língua francesa continua a ocupar um lugar importante no mundo, não obstante suas carências em determinados setores, como as ciências duras, o direito comercial e as relações internacionais, e apesar do pessimismo de certas idéias passadistas. O francês é, com o inglês, a única língua de trabalho das organizações internacionais, tanto na Europa quanto na África, por exemplo, onde ocupa um lugar privilegiado na Organização da Unidade Africana (OUA). O francês é a língua materna de cerca de 80 milhões de falantes, o que o situa em 11º lugar no mundo (num universo de mais de 2.000 línguas identificadas) e em 9º lugar, com 160 milhões de falantes, se levarmos em conta o francês como segunda língua. Finalmente, estima-se em mais de 250 milhões o número de pessoas "capazes de utilizar eventualmente o francês". Além desses dados numéricos, pesquisas realizadas em vários países indicam que o francês preserva a imagem positiva de uma língua útil, indispensável em determinados setores profissionais, mas também de uma língua indissoluvelmente ligada a valores, a uma cultura, a projetos de sociedade de alcance universal. A língua francesa tem o privilégio de ser mundialmente reconhecida como uma grande língua de civilização. É esta situação do francês que fundamenta sua difusão mundial, sua presença nos sistemas educativos e seu ensino. Estima-se em 57 milhões o número de alunos e estudantes que aprendem o francês ou estudam em francês no exterior, e em 900.000 o número de professores mobilizados para isto.

Uma comunidade de horizontes, aberta e tolerante (voltar ao topo)

A Francofonia institucionalizada é recente. Seu ato de fundação é a criação em Niamey, em 20 de março de 1970, da Agência de Cooperação Cultural e Técnica, mais tarde rebatizada Agência da Francofonia. Foi imaginada e concebida como uma comunidade lingüística e cultural pelos próprios países do Sul, após a conquista da independência. E sem intervenção direta da França: o general de Gaulle mostrava-se reticente quanto à formação de uma organização estruturada da francofonia. Só depois que ele deixou o poder é que ela se formou. A Agência da Francofonia, que completou trinta anos em 2000, foi levada à pia batismal por cinco estadistas-símbolo, o tunisino Habib Bourguiba, o cambojano Norodom Sihanouk, o nigeriano Hamani Diori, o libanês Charles Hélou e o senegalês Léopold Sédar Senghor. Sua preocupação era manter vívidos os elos criados pela história e as referências comuns em torno de uma língua. Esta projeto logo transcenderia os contornos do antigo império francês. Outros países vieram juntar-se aos membros fundadores.

Organização de vocação universal, a Francofonia é por natureza uma comunidade aberta para o mundo, assim como para os povos e as culturas que a integram. Basicamente, a Francofonia pretende congregar em torno dos valores de fraternidade, tolerância e universalismo países os mais diversos por sua história, sua cultura e seu nível de desenvolvimento, mas unidos na intenção de afirmar sua identidade no atual movimento de globalização. A Francofonia não deve portanto ser confundida com o conjunto de iniciativas destinadas a promover o francês no mundo. Ela não é estática. Ao contrário do que acontece com a Commonwealth, por exemplo, os critérios de integração a ela não são condicionados por uma história colonial comum. Eles tampouco impõem que o francês seja a língua oficial nos Estados-membros.

Um dispositivo multilateral renovado (voltar ao topo)

O dispositivo institucional da Francofonia inclui instâncias políticas e operadores. As instâncias políticas são dominadas pelas conferências dos chefes de Estado e governo da Francofonia (reuniões de cúpula) que se reúnem de dois em dois anos num país diferente e estabelecem, as linhas gerais do movimento nos dois anos subseqüentes. Data da última cúpula: 18 a 20 de outubro de 2002. A Conferência dos Ministros da Francofonia delineia a programação dos operadores, e discute as linhas gerais da Francofonia multilateral. O Conselho Permanente da Francofonia (CPF), formado pelos representantes pessoais dos chefes de Estado e de governo dos países membros da organização, é convocado periodicamente, sempre que o justifica sua ordem do dia. Incumbido das questões correntes da Francofonia, o CPF prepara o trabalho das demais instâncias políticas da Francofonia. Paralelamente às instâncias políticas, e submetidos a sua autoridade, os operadores diretos da Francofonia encarregam-se da programação setorial da organização. Eles são cinco:

A Agência Intergovernamental da Francofonia, a Agência Universitária da Francofonia, a Associação Internacional dos Prefeitos e Dirigentes de Metrópoles Francófonas, a Universidade Senghor de Alexandria e a cadeia de televisão TV5. Só a Agência Intergovernamental tem vocação generalista, tendo competência em todos os setores, exceto os afetos à competência especializada de um outro operador direto.

Decidida na reunião de cúpula de Hanói em 1997, a reforma institucional teve um alcance considerável, pois permitiu dar um rosto à organização, com a criação de uma Secretaria Geral da Francofonia. Eleito pelos chefes de Estado e de governo com mandato de quatro anos renováveis, o secretário geral pode ser considerado o "maestro" da Francofonia: dirigente máximo da Agência Intergovernamental, presidente do conselho permanente, porta-voz político e representante oficial da Francofonia em nível internacional, ele também exerce funções importantes em matéria de cooperação, pois é o responsável pela animação da cooperação multilateral. De acordo com as orientações das reuniões de cúpula, ele propõe às instâncias políticas da Francofonia os eixos prioritários da ação multilateral, em entendimento direto com o Administrador Geral da Agência da Francofonia e os demais operadores diretos. O funcionamento deste novo dispositivo institucional pode ser considerado um sucesso.

Uma comunidade dinâmica (voltar ao topo)

Em trinta anos, o número de membros da Francofonia institucional passou de 22 a 55. Atualmente a Francofonia congrega mais de um quarto dos países do mundo (49 membros plenos, 2 membros associados e 4 observadores) .

Seus Estados-membros contam 11% da população mundial, contribuem com 10% da produção mundial e geram 15% do comércio internacional. Ela está presente nos cinco continentes, e constitui um mosaico de povos que, à parte suas diferenças, alimentam uma ambição política e cultural comum: a de construir autênticos Estados de direito e promover a diversidade lingüística e cultural.

Quanto a suas missões, a Francofonia também evoluiu muito. Já é hoje bem mais que uma simples comunidade língüística, e se por um lado a língua francesa continua sendo seu denominador comum, por outro ela veicula em todo o mundo valores e uma mensagem de universalismo e democracia. A Francofonia é um ator reconhecido do desenvolvimento. O valor total das contribuições de seus operadores, dois terços dos quais incumbem à França, é de 200 milhões de euros por ano. Os programas foram orientados em torno de algumas linhas prioritárias: língua, cultura, educação, democracia, redução das diferenças na área digital.

No que se refere aos métodos, a Agência Intergovernamental da Francofonia dá prioridade atualmente à ajuda para a elaboração de políticas, tendo como objetivo facilitar o acesso dos países do sul aos financiamentos das grandes instituições internacionais e a condução dos atendimentos que visem permitir, aos países francófonos, defenderem melhor seus interesses nos fóruns onde são elaboradas a maior parte das normas de alcance mundial.

Ela está atenta igualmente às grandes transformações internacionais, como evidencia sua penetração na Europa do Leste após a queda do muro de Berlim. Uma parte considerável desse movimento é atribuível, enfim, ao poder de atração preservado pela língua francesa.

As reformas empreendidas pelas reuniões de cúpula de Hanói (1997), Moncton (1999) e de Beirute (2002) contribuem para detalhar o projeto francófono. Assim foi que veio a ser consagrada a vocação política da Francofonia, que hoje se articula em torno de duas prioridades: aprofundamento da democracia e do Estado de direito no espaço francófono e promoção da diversidade lingüística e cultural.

Aprofundamento da democracia e do Estado de direito (voltar ao topo)

Por iniciativa do secretário geral, a Francofonia confirmou esta orientação em Bamako em novembro de 2000, adotando uma importante declaração após um simpósio sobre as práticas da democracia e dos direitos humanos no espaço francófono. Este simpósio, reunindo numerosos dirigentes políticos e representantes da sociedade civil, permitiu fazer um balanço contrastado e imparcial de dez anos de transições democráticas. A declaração dota a Francofonia de termos de referência comuns em matéria de democracia e direitos humanos. Prevê mecanismos destinados a prevenir as crises da democracia, assim como medidas graduais em relação aos países onde se verifique uma ruptura da democracia ou violações em grande escala dos direitos humanos.

O simpósio também adotou, para os operadores da Francofonia, um plano de ação que repertoria as ações de cooperação a serem empreendidas no período 2002-2003 em matéria de formação de magistrados, consolidação das instituições jurídicas e apoio aos processos eleitorais. Este programa de ação será submetido à aprovação dos chefes de Estado e governo dos países que compartilham o francês durante a reunião de cúpula de Beirute em outubro de 2001.

Situando claramente o enraizamento da democracia no espaço francófono no centro da ação da Francofonia, o simpósio de Bamako atendeu às expectativas da França, que considera que a integração ao espaço francófono não pode mais admitir desvios da democracia e violações dos direitos humanos. Foi por sinal estimulante constatar que em Bamako os países do Sul fizeram seu o credo democrático e foram os primeiros a considerar que o fortalecimento do Estado de direito é uma condição determinante do desenvolvimento.

Promoção da diversidade lingüística e cultural (voltar ao topo)

Esta visa prevenir os riscos de desvio que podem ser gerados pela globalização. O objetivo é evitar que ela se torne uma fonte de agravamento das desigualdades e de negação das identidades, tornando-se pelo contrário um fator de desenvolvimento e diálogo das culturas. Os Estados e governos membros da Francofonia consideram que os bens culturais não podem ser reduzidos exclusivamente a sua dimensão econômica ou mercante e que os Estados ou governos têm o direito de fixar livremente sua política cultural, e em especial os meios e instrumentos necessários a sua concretização.

Por isto é que os chefes de Estado e de governo da Francofonia decidiram na reunião de cúpula de Moncton que seu próximo encontro será dedicado ao diálogo das culturas e à promoção da diversidade cultural. Nessa perspectiva, foi realizada em junho de 2001, em Cotonou, uma Conferência dos Ministros Francófonos da Cultura. Pelo mesmo motivo, o movimento francófono vem empreendendo desde a Conferência Ministerial da OMC em Seattle uma articulação ativa, que permitiu reafirmar a vontade dos países membros de promover a diversidade cultural e lingüística. Esta mobilização da Francofonia e das outras grandes áreas lingüísticas envolvidas – arabofonia, hispanofonia, lusofonia – facilitou a conscientização, nos países do Sul, de que têm interesses muito concretos a defender em matéria de proteção do patrimônio, difusão de suas produções culturais e circulação dos criadores, e de que a Francofonia pode ajudá-los neste sentido. A ação da Francofonia visa efetivamente ajudar esses parceiros do Sul a estruturar sua reflexão e impor seus pontos de vista nas instâncias internacionais competentes.

A constante atenção das autoridades (voltar ao topo)

Na França, o acompanhamento das questões relativas à francofonia incumbe particularmente a:

Os serviços competentes do Ministério das Relações Exteriores e, em primeiro lugar, o serviço dos Assuntos Francófonos. Sob a autoridade do ministro delegado da Cooperação e da Francofonia, eles preparam e empreendem a política do Governo em matéria de francofonia. Eles contribuem para a definição das ações empreendidas pelo Estado e pelos organismos interessados no desenvolvimento da francofonia e da língua francesa;

O Conselho Superior da Francofonia. Este órgão, antes de caráter consultivo, presidido pelo chefe de Estado, em decorrência do conselho permanente de 10 de janeiro de 2002, passou a estar diretamente ligado ao Secretário-Geral da Francofonia. Composto de cerca de trinta membros originários de todos os continentes, ele se reúne em sessão anual. O Conselho Superior da Francofonia organiza, além disso, numerosos seminários de reflexão sobre temas ligados à Francofonia, publicando um relatório anual sobre a situação da Francofonia no mundo.

Aprofunde sua pesquisa: (voltar ao topo)

Site internet do Ministério das Relações Exteriores
www.diplomatie.gouv.fr


Site internet do Conselho Superior da Francofonia
www.hcfrancophonie.org


Site internet da Agência Intergovernamental da Francofonia
www.agence.francophonie.org

 

Fonte: http://www.france.org.br

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