Os investimentos
franceses no exterior
por
Lionel Fontagné*
novembro
de 2001
A abertura
das economias caracteriza-se em geral por um forte aumento das
trocas internacionais. E é precisamente a produção
no exterior das empresas multinacionais que mais ativamente participa
hoje em dia da internacionalização das economias.
As vendas efetuadas no exterior pelas filiais dessas empresas
representam o dobro do valor do comércio mundial de bens
e serviços; sua produção no exterior representa
a metade do comércio mundial.
Essa tendência
indica uma necessidade de examinar a dinâmica dos investimentos
diretos estrangeiros: constituindo uma introdução
à atividade no país de hospedagem, esses investimentos
podem em contrapartida ter um impacto considerável nas
trocas, na atividade e nos níveis de emprego do país
investidor. Tais questões preocupam a opinião pública
e seus representantes: não estaríamos assistindo
a uma "expatriação de competências e
capitais"¹
De maneira
mais geral, caberia perguntar se a globalização
não é um processo sofrido passivamente. Os investimentos
diretos no exterior (IDE) não teriam como contrapartida
o fechamento de empresas no território nacional, numa lógica
na qual os investimentos no exterior tomariam o lugar de investimentos
na França? Essas questões adquirem especial relevância
já que a França está no terceiro lugar mundial
dos países que investem no exterior e no quinto lugar mundial
dos países de destinação desses investimentos.
Algumas
definições
O investimento
direto estrangeiro (IDE) é definido pelo interesse manifestado
pelo investidor na empresa-alvo. Por convenção,
prevalece o limiar de 10% de controle direto. Aquém desse
limiar, fala-se de investimentos de carteira. O IDE pode ser contabilizado
em fluxo (valor das operações registradas em balança
de pagamentos ao longo do ano) ou em estoque total. No segundo
caso, impõe-se a necessidade de uma convenção
de contabilização, valor contábil ou valor
de mercado. Os fluxos financeiros contabilizados dizem respeito
a:
- operações
com fundos próprios (criação de empresa,
aquisição ou ampliação de uma empresa
existente, compra de obrigações conversíveis
em ações, subvenções, financiamento
de déficits operacionais, consolidação de
empréstimos, imóveis) ;
- lucros reinvestidos
in loco (resultados diminuídos dos dividendos distribuídos)
;
- empréstimos
a longo prazo (mais de um ano) entre matrizes e filiais;
- fluxos financeiros
a curto prazo entre filiais, resultantes da gestão centralizada
das tesourarias no interior dos grupos. Desse modo, uma vez atingido
o teto de 10% de participação, as operações
de tesouraria ou os empréstimos entre empresas são
considerados como investimento direto.
Um
forte aumento dos fluxos de saída (voltar
ao topo)
Os fluxos
de investimento estrangeiro da França aumentaram fortemente
nos três últimos anos, alcançando 101 bilhões
de euros em 1999.
Isso corresponde
a 7,5% do PIB da França, equivalendo a uma triplicação
em três anos. Essa rápida progressão dos IDEs
que saem da França (superando em muito a dos IDE que entram,
que chegam apenas a 2,7% do PIB em fim de período) tem
uma explicação principal bem diferente da percepção
que se tem em geral dos investimentos no exterior (ver gráfico
1).

Com efeito,
é o dinamismo das fusões-aquisições
transfronteiriças (ver gráfico 2) o principal fator
de explicação dessa explosão recente dos
investimentos franceses no exterior. Assim, em 1999 as operações
da Aventis na Alemanha (Hoechst), da Total Fina na Bélgica
e nos Estados Unidos (Petrofina), da Renault no Japão (Nissan),
da Vivendi e da Lyonnaise des Eaux nos Estados Unidos (distribuição
de água, lixo doméstico) e do Carrefour na Holanda
traduziram uma aceleração da internacionalização
das empresas francesas.
Em todos os
casos, trata-se da compra de empresas existentes, que não
pode ser considerada uma mudança de localização.
Tais operações são motivadas pela concretização
do mercado único europeu e de maneira mais geral pela acentuação
da concorrência a nível internacional. Deste ponto
de vista, a tendência verificada na França não
difere em absoluto do que se observa no resto da União
Européia.
Duplicação
do total de investimentos franceses no exterior em oito anos
(voltar
ao topo)
Estimado por
seu valor contábil corrente, o estoque total dos investimentos
no exterior alcançou 240 bilhões de euros em 1998,
o que representa 18% do PIB francês, contra 12% em 1996.
A progressão recente é portanto significativa. Quando
se calcula o valor desses ativos no exterior em valor de mercado,
e não mais em valor contábil, atingimos 632 bilhões
de euros, o equivalente a 48% do PIB.
| Seriam
estes números elevados em comparação
com países de mesmo nível? Em valor contábil,
as comparações internacionais são possíveis:
o país mais internacionalizado é a Holanda,
seguido da Bélgica, respectivamente com 65% e 47% de
seus PIBs. Não surpreende que os países pequenos
se mostrem dos mais abertos, inclusive em matéria de
investimento direto. Seguem-se o Reino Unido (34%) e o Canadá
(25%). A Alemanha está no nível da França
(17%), antes da Itália (13%) e sobretudo dos Estados
Unidos (11%) e do Japão (7%). |
|
Duas características
da presença francesa no exterior devem ser destacadas.
Em primeiro
lugar, a parcela já hoje limitada da indústria nesse
total, dado importante para a análise das possíveis
conseqüências do IDE nas trocas e nos níveis
de atividade e emprego. A repartição dos setores
nos quais se realizam esses investimentos muda com o tempo: em
1999, a indústria no sentido estrito já não
representa mais que 30% do total, ou 9 pontos percentuais a menos
que em 1991. A parcela do crédito desenvolveu-se no mesmo
período, em detrimento dos demais serviços mercantes,
e a energia também avançou. Mas foi sobretudo o
peso das holdings no exterior que triplicou no estoque total,
atingindo 12% (ver gráfico 3). A posição
dos grupos e de sua reestruturação financeira é
portanto predominante.
A outra característica
é o caráter eminentemente europeu desse IDE. Mais
da metade dos haveres franceses no exterior situam-se em algum
outro país da União Européia de quinze membros
(UE15). Fora da UE15, o país que maior interesse apresenta
para os investidores franceses continua sendo os Estados Unidos
(mais de um quinto do total de investimentos). Os outros destinos
importantes, como o Brasil e a Suíça, representam
parcelas marginais. Cabe notar a parcela infinitesimal do Japão
(ver gráfico 4). Como a UE é uma economia integrada,
torna-se difícil falar de investimento no exterior na metade
dos casos, o que é coerente com o fato de uma proporção
considerável das trocas realizar-se entre países
europeus.

O total de
investimentos no exterior representa, como dissemos, 11% do PNB
americano (em valor contábil), contra 18% do PIB francês.
Se limitarmos entretanto a comparação aos investimentos
não-comunitários da França, a parcela é
de 9% do PIB francês.
Mas esta análise,
em termos de total dos investimentos, oculta uma reorientação
geográfica dos fluxos de investimentos franceses: em 1999,
26% dos fluxos de saída (inclusive lucros reinvestidos)
dirigiram-se aos Estados Unidos, 60 % para a UE15. O principal
país de destino desses investimentos continua sendo a Alemanha,
com 29% das saídas; é ela também o maior
parceiro comercial da França. Um país como a China
representa apenas 0,2% dos fluxos franceses. Estamos longe portanto
de um fenômeno de transferência em massa das instalações
industriais.
Conseqüências
para a economia de origem (voltar
ao topo)
|
O investimento
no exterior das empresas nacionais é motivado por
uma constatação simples: as perspectivas de
lucro (inclusive a longo prazo, levando-se em conta as questões
de estratégia de posicionamento nos mercados externos)
são maiores que no território nacional. Podemos
portanto considerar que tais investimentos tomam o lugar
de investimentos no país de origem. Os valores investidos
no exterior simplesmente não teriam sido investidos
no país, por falta de
|
 |
| oportunidades.
E, como vimos, essas oportunidades são cada vez mais
operações de fusão-aquisição:
em mercados muito abertos, como na União Européia
ou na OCDE, o melhor parceiro em geral não é
uma empresa nacional, por razões estratégicas
e em termos de respeito às regras da concorrência.
A Renault não cogitou de uma fusão com a francesa
PSA, mas com a européia Volvo. E a escolhida foi afinal
a japonesa Nissan. A Nissan não estava instalada na
França, e essa operação gigantesca de
crescimento externo é, de facto, um IDE. |
Como
então saber o que aconteceria na ausência de IDE,
em termos de produção e também, portanto,
em termos de emprego? A produção no exterior não
estaria tomando o lugar da produção e dos empregos
nacionais? Devemos excluir de nossa análise as fusões-aquisições,
para as quais a resposta é totalmente indeterminada, no
caso geral.
No que diz
respeito a todos os outros investimentos, a nível microeconômico,
a resposta é clara: existem casos de transferência
territorial de atividades. Determinada empresa de mão-de-obra
fecha suas unidades de produção na França,
mantendo apenas as atividades de concepção e difusão.
Mas a economia é uma soma de setores, e dentro destes uma
soma de empresas. O exemplo individual, de conseqüências
sociais sempre difíceis, não poderia, assim, pautar
a reflexão. Uma resposta mais circunstanciada é
fornecida pela observação da relação
estatística entre comércio internacional, IDE e
emprego.
Examinando
essa relação do ponto de vista bilateral (a França
diante da Alemanha, por exemplo), o IDE e o comércio são
aparentemente complementares a nível macroeconômico
entre os dois países considerados. Mas se trata em grande
medida de uma ilusão estatística, da qual não
podemos deduzir qualquer argumento em termos de efeito de estímulo.
São os mesmos fatores que explicam o IDE e as trocas: os
dois países são próximos, têm uma fronteira
e uma moeda comuns, são grandes (em termos econômicos),
têm uma renda per capita elevada, etc. Mas é sobretudo
a dimensão setorial da relação que é
muito importante: uma atividade de serviço no exterior
o mais das vezes acarreta uma presença (uma rede bancária,
por exemplo), o que não acontece na indústria. E
de uma indústria a outra a opção entre "produzir
e exportar" e "investir para produzir localmente"
difere : as economias de escala, os custos de transporte, a intensidade
da concorrência e a tecnologia contida nos produtos afetam
as decisões das empresas. Finalmente, a França investe
e exporta nos mesmos setores, que são os setores competitivos,
o que constitui uma dificuldade suplementar de análise.
Quando esses
diferentes mecanismos de introdução de "ruídos"
na relação buscada são controlados mediante
métodos estatísticos apropriados, surge finalmente
uma relação de complementaridade entre comércio
e IDE: investir no exterior acarreta exportações
suplementares (máquinas, peças de reposição,
componentes), sobretudo nos primeiros anos, mas também
importações suplementares provenientes do país
receptor. Globalmente, o efeito não acaba sendo positivo
para o comércio do país exportador. No interior
dos setores, cada euro de IDE francês vem a ser associado
a um excedente comercial de 30 centavos na indústria de
investimento, face ao país receptor. Mas a longo prazo
esse efeito positivo para o país emissor vem a ser neutralizado:
a atividade das filiais francesas no exterior tem um efeito permanente
marginal sobre as exportações e as importações
francesas. Em geral, o conteúdo local da produção
da filial aumenta, e a filial ganha autonomia. Isso não
impede que essa filial continue o mais das vezes sendo um centro
de lucro extremamente importante para a matriz.
Globalmente,
o IDE não "desloca" a atividade e o emprego no
país de origem. O nível de produção
interna não é afetado a longo prazo, e a curto prazo
é antes afetado de maneira positiva. Isso não exclui
a possibilidade de um impacto nas qualificações
profissionais: as atividades mantidas no território nacional
são em geral mais qualificadas, mais intensivas em pesquisa
e desenvolvimento – numa palavra, atividades de alto valor agregado.
Deste ponto de vista, o IDE não tem portanto efeitos muito
diferentes do comércio para países como a França.
Aprofunde
sua pesquisa (voltar
ao topo)
O portal da
Secretaria de Comércio Exterior: www.commerce-exterieur.gouv.fr
O site do
Centro Francês de Comércio Exterior: www.cfce.fr
(1) Relatório Ferrand, "Mondialisation: réagir
ou subir? La France face à l’expatriation des compétences,
des capitaux et des entreprises", Senado, junho de 2001.
|