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DELÍCIAS
COM A GRIFE DE UMA CHEF DE OURO
25/07/2004
Doces folheados
com o metal são novidades que explicam o sucesso de Samantha
Aquim nos banquetes do Rio
Talvez Freud
explique porque ela levou tanto tempo rejeitando o ofício
da mãe. Mas desde que largou um empregão de psicóloga
numa multinacional para encostar a barriga no fogão, a
chef Samantha Aquim anda com a cabeça ótima. Sorte
de quem tem o prazer de experimentar as delícias - em todos
os sentidos - que ela prepara para as festas da Cartier, Louis
Vuitton e Fórum, entre outros clientes vips. Aos 26 anos,
Samantha é a banqueteira da hora no Rio. Na semana retrasada,
fez muita gente voltar à infância diante de uma bandeja
de docinhos. Neste caso, a iguaria valia ouro. Literalmente.
- As pessoas
chegavam e me diziam: 'Já comi R$ 180'. Tenho direito a
mais? - conta ela, às gargalhadas, numa referência
ao doce folheado a ouro que enfeitou a festa da Cartier no Aeroporto
Santos Dumont e cuja unidade custava R$ 60. - Foi o maior avanço
nas bandejas. Nunca imaginei que iam fazer tanto sucesso.
Bobagem. Com
um ego do tamanho de uma alcaparra - num mundo em que a vaidade
costuma ter a dimensão de uma melancia - Samantha já
devia ter se acostumado com os elogios. Mas, modesta, sabe que
paparicos não enchem a barriga de ninguém e prefere
desconversar quanto o tema é o sucesso de seu tempero.
- Para mim,
bom chef é aquele que mantém um padrão de
alta gastronomia durante cinco anos e, depois daquele período,
renova toda o cardápio e as pessoas continuam achando maravilhoso.
É a mesma coisa que um artista: fazer uma obra-prima não
significa que todo o trabalho dele será no mesmo nível.
Não tenho sequer tempo suficiente de carreira para me considerar
uma estrela - afirma a moça, que daria a camisa 10 da seleção
de caçarolas e panelas ao chef Roland Villard, do Pré
Catelan.
Para a família
Aquim, que fundou o bufê há 11 anos, o talento de
Samantha já era perceptível na infância. E
olha que a mãe e os irmãos também são
craques de forno e fogão. Mas a menina que não desgrudava
de um conjunto de panelinhas de plástico guarda na pele
as lembranças desse tempo em que cozinhar era só
brincadeira de criança.
- Como só
podia brincar depois do almoço, eu sempre tentava ajudar.
Um dia me queimei fritando pastéis. Tenho a cicatriz na
perna até hoje - conta ela.
Na Itália
e na França,
as lições da boa mesa
Já
adolescente, Samantha optou por cuidar de outras cicatrizes: as
da alma. Foi estudar psicologia e, depois de formada, arrumou
emprego numa clínica psiquiátrica. Vem daí
a paixão por neuroanatomia e a mania de procurar uma explicação-cabeça
para cada um de seus pratos. Dia desses, a chef encontrou um ex-paciente
no supermercado, quando comprava uns temperinhos. Ficou envergonhada
e não se apresentou ao rapaz:
- Ele me olhou
meio espantado porque eu estava com roupa de chef. Fiquei sem
graça.
Tão
sem graça quanto ficava quando recebia elogios dos professores
de duas mecas da alta gastronomia mundial: o Instituto de Culinária
Italiana para Estrangeiros, no Piemonte, e a École Lenôtre,
em Paris. Em ambos foi diplomada com louvor. E não apenas
pela capacidade de fazer um risoto no ponto certo ou um croissant
com a massa simetricamente perfeita.
- Nos cursos
aprendi que, para ser chef, não basta saber cozinhar. Você
precisa ter cultura geral. Fica muito mais fácil decorar
um prato se você gosta de artes, freqüenta museus,
sabe o que é estética. Também é fundamental
ter capacidade de comandar um time. Até porque cozinhar
é um trabalho coletivo - diz ela.
No caso de
Samantha, o time inclui a mãe e dois irmãos, que
ajudaram a bancar o caríssimo curso da Lenôtre. O
preço de seu trabalho também é salgado, mas,
por respeito aos clientes, ela prefere não falar sobre
dinheiro. E gasta saliva contando como fez docinhos com a logomarca
da Louis Vuitton, um banquete todo branco para a Fórum,
a comidinha brasileira do camarote do governo de Minas no carnaval
e por aí vai.
- Caldinho
de feijão, para mim, é um pecado. Gosto tanto que
preciso me controlar - admite a moça, que é fã
de risotos e de macarron, um doce de origem francesa feito à
base de merengue e farofa de amêndoas.
Dá
para perceber que, como todo chef que se preze, Samantha adora
comer. E acha que tudo é uma questão de hora e lugar.
- Você
tem que saber o que comer e aonde. Quer coisa mais legal do que
ir ao Bar Lagoa e pedir um salsichão com salada de batata
para acompanhar um chope gelado? E, para mim, não tem programa
melhor do que tomar uma água de coco em Ipanema, num fim
de tarde de domingo.
Fonte: Jornal
O GLOBO
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